Indústria vê mercado encolhido
Na última década a participação da indústria de transformação no PIB brasileiro recuou de 18% para 13%. A produção industrial cresceu 16% enquanto as vendas do comércio aumentaram 90%. A balança comercial de produtos manufaturados, que era superavitária até 2007, apresentou um déficit de US$ 105 bilhões em 2013. Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) demonstram que a expansão do consumo brasileiro tem sido atendida principalmente por produtos importados. Para as siderúrgicas brasileiras, esse cenário representa um encolhimento em seu potencial de mercado.
Segundo o Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Produtos Siderúrgicos (Sindisider), a importação indireta de aço, aquela que vem embarcada em produtos prontos, multiplicou-se quase que por cinco no período. Em 2004 entraram no país 1,18 milhão de toneladas de aço na forma de máquinas, equipamentos, eletrodomésticos, veículos, autopeças e estruturas metálicas importadas. Em 2013 foram 5,57 milhões de toneladas. "Muitos industriais deixaram de produzir e se tornaram comerciantes de produtos importados", diz Carlos Loureiro, presidente do Sindisider.
As importações diretas de aço cresceram 573% desde 2003, alcançando 3,7 milhões de toneladas no ano passado. Somando importações diretas e indiretas, entram no país 9,27 milhões de toneladas de aço, ou seja, 32% do consumo aparente. Em 2008 as importações respondiam por 24,7% do consumo. "Se continuar a evoluir nesse ritmo, em 2023 os importados atenderão 53% da demanda brasileira", diz Benjamin Baptista, CEO da ArcelorMittal Brasil.
Marco Polo de Mello Lopes, presidente executivo do Instituto Aço Brasil, diz que o país passa por um processo de desindustrialização e os fatores que levam a uma perda de competitividade das siderúrgicas são os mesmos que afetam seus clientes. "O problema é sistêmico. A carga tributária é alta. Os juros são elevados. A infraestrutura é inadequada. A energia é cara. O câmbio favorece as importações. Não há isonomia de condições com os produtos do exterior", diz.
Segundo o executivo, desde 2008 as siderúrgicas brasileiras investiram US$ 20 bilhões, sendo que por volta de 75% dos recursos foram destinados a modernizar o parque industrial em busca de maior produtividade. O esforço não tem sido recompensado com um ganho mercadológico, pelo contrário. "Utilizamos apenas 70% da capacidade instalada, enquanto as importações de aço cresceram 18% apenas no primeiro semestre do ano", diz.
Benjamin Baptista cita um estudo da consultoria Booz & Company para demonstrar que, do portão para dentro, as siderúrgicas brasileiras são competitivas. Mas elas perdem essa condição quando se insere nos preços o peso de encargos e carga tributária.
Tendo como base dados de 2012, a consultoria comparou os custos de seis grandes produtores, Brasil, China, Alemanha, Estados Unidos, Rússia e Turquia. O Brasil tem o menor custo produtivo em bobinas a quente e é o terceiro mais competitivo em vergalhões. Em relação à China, país de origem de 37,8% do aço importado pelo Brasil, os custos da produção brasileira são 9% menores em bobinas a quente e 12% menores em vergalhões. No entanto, incluindo impostos e encargos, os produtos brasileiros se tornam os mais caros entre os seis países.
A situação não é diferente no restante da cadeia produtiva. Uma comparação realizada pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) entre o Brasil e os 15 países que mais exportam seus produtos industrializados para o país, grupo no qual estão incluídos tanto países desenvolvidos como Alemanha, Japão e Estados Unidos, mas também Argentina, México e Índia, além de China e Coreia, concluiu que o custo de produção brasileiro é, em média, 34,2% maior, quando são inseridos ao preço final dos produtos os impactos da variação do câmbio, dos juros, dos tributos e dos gastos com infraestrutura.
Baptista diz que o câmbio é um dos principais problemas enfrentados pela industria nacional. Em suas contas, em 2014 o real apresenta uma apreciação em relação ao dólar de 22%, enquanto a moeda chinesa está desvalorizada em relação ao dólar em 43%, a lira turca está desvalorizada em 8%, o rublo russo em 47% e o iene japonês em 24%. "Nessas condições é difícil falar em competitividade", diz.
Carlos Loureiro, do Sindisider, diz que a falta de competitividade estrutural do país está destruindo a capacidade produtiva da indústria e essa situação terá um impacto duradouro, uma vez que a reestruturação dessa capacidade é naturalmente lenta. "A indústria terá que voltar a investir em equipamentos, desenvolver novos fornecedores, contratar e treinar pessoal. Mas antes de tudo, terá que sentir confiança de que esse esforço será recompensado. Hoje não há", diz.