País usa só 30% do potencial de redução de consumo de energia
Em meio a uma crise de energia, o Brasil vive uma situação contraditória. Apesar de haver R$ 400 milhões de recursos disponíveis para o financiamento de projetos de economia de energia, o país aproveita menos de 30% de seu potencial de redução do consumo energético. Os dados fazem parte de estudo inédito desenvolvido pelo Centro Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), ao qual o Valor teve acesso e que será apresentado hoje, durante a conferência do clima das Nações Unidas (COP 20), em Lima.
A partir de entrevistas com bancos e empresas, o estudo "Destravando o Financiamento à Eficiência Energética no Brasil" diagnosticou as barreiras existentes para a financiamento de projetos de redução do consumo de energia no país. Uma das principais conclusões é a necessidade de melhorar o fluxo de informações entre empresas e instituições financeiras.
"Os bancos possuem linhas de financiamento específicas para eficiência energética, mas que não são acessadas. Há uma lacuna entre as empresas e os bancos", afirmou Fernanda Gimenes, coordenadora do CEBDS e uma das responsáveis pelo estudo.
Segundo o gerente-geral de sustentabilidade do grupo Votorantim e presidente da câmara temática de energia e mudança do clima do CEBDS, David Canassa, uma das dificuldades é que, em geral, a linguagem adotada pelas empresas é diferente daquela utilizada pelos bancos.
"Quando o banco não entende alguma coisa, ele entende aquilo como um risco. E risco é tudo o que um agente que está dando um empréstimo não quer. E, do ponto de vista da pessoa que está buscando a eficiência energética, ela precisa ter simplificada a linguagem financeira para fazer o casamento do projeto dela com o banco", explicou Canassa. "Tem que haver um esforço para juntar essas pessoas diferentes, porque tem dinheiro na mesa, há negócios a serem feitos, e a falta de clareza entre as duas partes está impedindo que esses negócios aconteçam", disse.
Segundo o diretor de sustentabilidade do Santander, Carlos Nomoto, é preciso que as empresas, ao desenvolver um novo projeto, calculem o quanto ele deve economizar de energia, o quanto vai reutilizar de água e o quanto ele vai reduzir a emissão de gases de efeito estufa. "Quanto mais claros ficarem esses impactos, em um primeiro momento, já se reduz parte dos riscos", disse ele, que também é presidente da câmara de finanças sustentáveis do CEBDS.
O Santander, explicou Nomoto, possui linhas de financiamento específicas, com taxas diferenciadas, para projetos de eficiência energética, gestão de resíduos e troca de equipamentos. O banco também presta serviços de assessoria para auxiliar o cliente a descobrir os ganhos energéticos potenciais. Além disso, o Santander possui 130 agências no Brasil que promovem o reúso de água. A medida faz parte da meta do banco de reduzir em 20% o consumo de energia e a emissão de gases do efeito estufa globalmente entre 2010 e 2015.
Outro problema identificado no estudo que será apresentado hoje pelo CEBDS é a dificuldade de destinar recursos próprios das empresas para projetos de eficiência energética. Isso porque esses projetos concorrem por recursos com projetos relacionados à atividade-fim das companhias. "Assim, os projetos de eficiência energética acabam competindo com outros projetos que, em sua maioria, apresentam retorno econômico superior ou maior alinhamento com os interesses estratégicos da empresa", aponta o estudo.
Uma solução para esse problema, indicou Fernanda, é incluir o tema eficiência energética na diretriz estratégica da companhia. A medida foi adotada pela Votorantim desde 2006, quando a companhia realizou um balanço energético para medir a sua produtividade e definiu metas anuais de aumento de eficiência. Logo no primeiro ano, a companhia conseguiu aumentar a eficiência em 5%.
No ano passado, só na Votorantim Metais, foram economizados 623,7 mil gigajoules de energia elétrica e térmica. O montante, que representou cerca de R$ 13,4 milhões de economia para a empresa, é suficiente para abastecer 851 mil residências durante um mês.
Ao todo, o estudo do CEBDS listou 12 soluções propostas para destravar projetos de eficiência energética. O documento agora servirá de base para um encontro que a entidade vai realizar com empresas e bancos no início de 2015 para tratar do assunto. "Vamos escolher algumas soluções em conjunto para fazer algo mais prático", disse Fernanda.