Aumento de custos pressiona a indústria
Enquanto a indústria nacional perde produtividade e receita, os custos de produção, na contramão, aumentam e levam o setor a perder a capacidade de investir. Em Minas Gerais, o perfil da economia levou o parque estadual a uma situação ainda pior, puxada pelo fraco desempenho de importantes segmentos, como o automotivo, a metalurgia (siderurgia, ferro-gusa e fundição) e a atividade extrativa.
De acordo com dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), os custos industriais no Brasil aumentaram 1,7% no terceiro trimestre deste ano em comparação com os mesmos meses de 2013. A elevação das tarifas de energia elétrica decorrente do acionamento das termelétricas, em função da seca ao longo do ano, que levou os custos com energia a uma alta de 15,7% em igual comparação, alavancou o aumento dos custos industriais no período.
Segundo a CNI, os custos industriais, de forma geral, vêm crescendo anualmente e os preços de produtos manufaturados vêm se mantendo estáveis, o que pressiona as margens do parque produtivo. Para o gerente de Pesquisa e Competitividade da CNI, Renato da Fonseca, nem mesmo a desvalorização do real frente ao dólar nos últimos meses foi suficiente para garantir uma reversão do quadro atual, com perda de produtividade e de receita e, na outra ponta, aumento dos custos.
Insumos importados - "A desvalorização do real teve um impacto positivo para a competitividade da indústria mineira em termos de concorrer tanto aqui dentro com os importados quanto lá fora. O grande problema é a produtividade porque o efeito da desvalorização do real também entra nos custos de produção, uma vez que a indústria utiliza insumos importados", afirmou Fonseca, durante divulgação dos indicadores de custos industriais.
Segundo o gerente da CNI, quando a desvalorização começa a encarecer os custos de produção, chega aos preços dos insumos produzidos internamente e o reflexo imediato é o aumento dos custos da indústria novamente. "É importante que haja investimento. A indústria precisa recuperar a confiança, voltar a investir, principalmente em inovação e investimentos que aumentem a produtividade", alerta.
O economista da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Paulo Casaca, destacou que a crise que assola a indústria é conseqüência do aumento dos custos. "A produtividade não conseguiu acompanhar esta elevação dos custos e a indústria não consegue ter preços competitivos, especialmente em relação aos concorrentes externos", pontua.
Casaca acrescentou que o setor estava tentando "esticar a corda" ao máximo para manter os níveis de emprego, mas está perdendo produção e vendo as margens de lucro despencarem, situação que levou à redução da capacidade de investimento. "A primeira coisa que uma empresa faz quando passa por dificuldades é deixar de investir. Ninguém vai investir nessa situação, pelo contrário, vai tentar cortar custos", ressalta.
Limite - O economista adverte que o esforço da indústria em manter os níveis de emprego, pagando o preço de perder produtividade e receita, já chegou no limite. "O custo de um processo de demissão é muito grande porque, além dos encargos trabalhistas e de tudo que foi investido para capacitar os trabalhadores, na hora que eventualmente a empresa precisar recontratar terá que investir novamente na qualificação", avalia.
Conforme dados divulgados na semana passada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em outubro a produção industrial mineira caiu 3,3% em relação a setembro, o terceiro pior resultado entre as 14 áreas pesquisadas. Na mesma comparação, o desempenho nacional ficou estagnado. Em relação a idêntico mês de 2013, a queda do parque estadual foi de 5,3%.
Nos primeiros dez meses deste ano, o desempenho do parque produtivo do Estado acumulou queda de 2,2% em relação ao mesmo período de 2013, retração menor do que a média nacional, que foi de 3%. A variação registrada nos últimos 12 meses em Minas Gerais também ficou negativa em 2,6%, mesma redução apurada no país.
Da mesma forma, conforme já divulgado pela própria Fiemg, o faturamento da indústria mineira caiu 7,6% no acumulado até setembro frente mesmo período de 2013. Além disso, as horas trabalhadas na produção, que reflete a produtividade do trabalhador industrial, também diminuíram 2,3% na mesma comparação.
Dados da Fiemg mostram que a indústria de veículos automotores mineira, que envolve também toda a cadeia de autopeças e reflete nas siderúrgicas, registrou queda de 21% no faturamento entre janeiro e setembro em comparação com o mesmo intervalo de 2013. O fraco desempenho do segmento foi o que mais pesou no resultado geral do parque mineiro.
A receita da indústria extrativa, outro setor de peso para o parque estadual, caiu 13% nos nove primeiros meses do ano frente mesmo período de 2013. Neste caso, a retração está mais vinculada às quedas dos preços internacionais da principal commodity de exportação do Estado, o minério de ferro, do que a uma situação conjuntural adversa do segmento. O segmento de metalurgia, em igual comparação, registrou retração de 6,5% de faturamento.