Aço em residências: praticidade e beleza
Comandado pelos arquitetos Lourenço Gimenes, Fernando Forte e Rodrigo Marcondes Ferraz, o FGMF Arquitetos foi fundado em 1999 pelos sócios, colegas da FAU-USP (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo). A proposta do escritório sempre foi pautada pela vontade dos profissionais de produzir uma arquitetura contemporânea e que não limitasse a criação quanto ao uso de materiais e técnicas construtivas. Atuando desta maneira, conquistaram reconhecimento, obtendo mais de 80 prêmios nacionais e internacionais. Nesta entrevista, Fernando Forte conta sobre o uso do aço nos projetos residenciais, tomando como um dos exemplos a Casa das Pérgolas Deslizantes, obra concluída este ano.
AA – Cada vez mais, o aço tem sido utilizado em obras residenciais. Neste segmento, a opção pelo material é meramente por razões estéticas ou há motivações técnicas para a especificação?
Fernando Forte – Nós costumamos usar a estrutura metálica nos mais diversos programas. Nunca é uma questão meramente estética em nossa escolha e, sim, a que nos parece mais adequada do ponto de vista estrutural e de montagem. É claro que a esbelteza dos perfis atrai muito o arquiteto, pois as estruturas metálicas são capazes de dar certa leveza a uma obra, dependendo da situação. Mas a capacidade de atender às demandas técnicas de cada projeto - como, por exemplo, velocidade, sustentabilidade e dificuldades próprias de cada terreno – é fundamental.
AA – Em quais casos o aço costuma ser usado?
FF – Já realizamos casas em estrutura metálica quando desejávamos que partes se movessem, ou em locais onde o acesso para a montagem de uma estrutura moldada in loco era muito complicado, ou, ainda, em casos de ensaios estruturais de grandes vãos. A lista é longa e é difícil apontar todos os casos em que o aço foi ou deve ser usado.
AA – Quais os benefícios que o aço apresenta para uma obra residencial?
FF – Eu diria que a velocidade na construção, a praticidade de montagem, a esbelteza de perfis e pilares, a capacidade de vencer grandes vãos e a maleabilidade do material para intervenções estéticas são os principais benefícios de tais estruturas.
AA – É um material diretamente associado às residências de alto padrão?
FF – A princípio, a construção residencial com perfis pesados é associada às residências de padrão mais elevado no Brasil, especialmente pela necessidade de um bom projeto arquitetônico e estrutural, o que já coloca o seu uso mais intenso em uma categoria de padrão diferenciado. Para se executar uma estrutura metálica, é necessária uma empresa especializada. Então, não é algo que “um empreiteiro dê um jeitinho”, o tipo de ação, geralmente, relacionada às obras de padrão mais simples. No entanto, ao pensarmos em sistemas como o light steel frame, podemos observar um crescente interesse das construtoras pelo uso do aço em residências de diferentes padrões. Afinal, a tecnologia minimiza a mão de obra e ganha em rapidez.
AA – Além da estrutura, há outros usos possíveis para o aço em uma residência? Ele pode substituir quais materiais?
FF – Sem dúvida, é possível projetar móveis, fixos ou não, brises, marquises, proteções, passarelas e uma série de outros usos que não a estrutura primária. Os materiais que ele substitui são diversos, dependendo do uso. No caso dos brises, por exemplo, podem substituir alumínio, madeira e outros.
“A escolha pelo aço nunca é uma questão meramente estética, ela é baseada naquilo que nos parece mais adequado também do ponto de vista estrutural e de montagem.“
Habitação no interior de São Paulo recebeu pérgolas e coberturas móveis em aço que permitem que os moradores adaptem a casa a seu critério, conforme a situação de uso e das condições climáticas
AA – No projeto da Casa das Pérgolas, quais são as suas principais características e a contribuição do aço para viabilizar a obra?
FF – Desde o princípio do projeto, ao decidirmos secionar o terreno em fatias de 4m, imaginamos realizar com vigas metálicas. Essas vigas metálicas têm diversas funções: dividir o terreno espacialmente; travar e estruturar as paredes de concreto pré-moldadas; vencer vãos entre as vigas principais que estruturam o telhado. Nele, as vigas principais funcionam como fechamento lateral dos telhados metálicos e como trilhos das pérgolas e coberturas deslizantes, permitindo que elas alcancem de um lado ao outro do terreno. Tentamos ao máximo dissolver a relação interno e externo nesta residência, sobretudo por meio de diversos pátios, divisão programática e recursos, como transparências e paisagismo. E, talvez, o aspecto que mais chama a atenção é o das pérgolas e coberturas móveis, que permitem que o usuário adapte a casa à sua necessidade. É possível se abrigar do sol ou da chuva em um churrasco, ao mesmo tempo em que é possível fazer o oposto em uma noite estrelada e agradável, por exemplo. É possível colocar as pérgolas sombreando determinadas áreas da casa, dependendo da posição do sol e do calor. Sem a estrutura metálica, esse projeto jamais existiria dessa forma, sobretudo em relação às partes móveis.
Casa das Pérgolas
Projeto arquitetônico: FGMF Arquitetos - Forte, Gimenes e Marcondes Ferraz Arquitetos
Área construída: 170 m²
Aço empregado: perfis estruturais tipo I em aço ASTM A502 GR50
Volume de aço: 8,4 t
Projeto estrutural: Oppea Engenharia
Fornecimento da estrutura de aço: Estrutel Estruturas Metálicas
Cobertura metálica: Serralheria Colonial
Execução da obra: Vettore Engenharia
Local: Bauru, SP
Data do projeto: 2012-2014
Conclusão da obra: 2014