Ipatinga. Em maio do ano passado, a Usiminas desligou um dos três alto-fornos da unidade de Ipatinga, no Vale do Aço. A decisão – justificada pela companhia para ajustar a produção em um momento que a demanda por aço está retraída – refletiu nos meses seguintes, em aumento de demissões na cadeia de produção de aços planos. Nos cinco primeiros meses de 2015, foram 148 desligamentos no setor, segundo levantamento do Sindicato dos Metalúrgicos de Ipatinga e região (Sindipa). De junho a dezembro, foram 438. O Sindipa afirma que os dados são baseados em estatísticas do Cadastro Geral de Emprego e Desemprego (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
Das 586 demissões verificadas no setor de aços planos em Ipatinga em todo 2015, 55,5% se concentraram nos três primeiros meses imediatamente após o desligamento do alto-forno. Houve contratações. Entretanto, das 114 do ano, 110 foram até maio, ou seja 96,5%.
De acordo com o presidente do Sindipa, Hélio Madalena, atualmente, não há grandes números de desligamentos, mas é visível a situação de sobrecarga dos funcionários. “A empresa demitiu muito e, quem fica, acaba fazendo o serviço dele, mais aquele que outra pessoa fazia.”
Segundo o sindicalista, a cidade está passando por uma precarização do trabalho, com redução da renda. “A Usiminas demitiu mais na faixa salarial maior e contratou mais na faixa salarial menor”, explica. Segundo dados do Sindipa, entre as 586 demissões de todo o setor, 89,6% foram de pessoas que ganhavam dois e dez salários mínimos. Já entre as 114 contratações, 85% foram de trabalhadores que recebem até dois salários. “É visível que há uma troca de salários mais altos, por menores”, afirma Hélio Madalena.
Por meio de nota, a Usiminas afirma que não estão sendo realizadas contratações com salários menores. “A empresa tem preenchido suas vagas priorizando transferências internas de empregados. As contratações que foram realizadas recentemente foram extremamente pontuais, apenas para preencherem funções específicas”, ressalta, por meio da assessoria de imprensa.
A empresa não forneceu dados de quantas demissões ou contratações realizou ao longo do ano. Mas, em todo o setor de aços planos de Ipatinga, de empresas com mais de mil trabalhadores, de junho a dezembro do ano passado, foram apenas quatro contratações. A Usiminas é a maior siderúrgica não apenas da região do Vale do Aço, mas do Brasil. A companhia vive um momento complicado de retração da demanda do aço e conflitos internos entre os dois controladores.
Mercado
Impacto. Com queda na venda de carros e retração na construção, a demanda nacional por aço caiu 16,7% em 2015, segundo o Instituto Aço Brasil, o que reflete diretamente na Usiminas.
Reajuste vai ser decidido na Justiça
Este ano, a negociação salarial entre empregados e Usiminas está acontecendo num cenário de queda na demanda pelo aço e, em meio a um prejuízo bilionário e uma disputa societária, a empresa vai enfrentar o dissídio coletivo. Após dez reuniões, a Usiminas tem duas propostas na mesa. Uma é de reajuste zero, com abono de R$ 4.000 parcelado, garantia de emprego ou salário para 98,4% dos empregados e 20 dias de retorno de férias. A outra é de reajuste de 3%, abono de R$ 2.000 e de dez dias de retorno de férias. “Primeiro eles ofereceram zero de reajuste, agora ofereceram 3%, mas querem retirar parte do benefício chamado retorno de férias”, explica o presidente do Sindipa, Hélio Madalena.
“Diante dos seus últimos prejuízos financeiros e da grave crise no mercado siderúrgico, a empresa considera, no mínimo, insensato a postura do sindicato de sequer colocar as propostas para que os empregados possam avaliá-las em assembleia. Um grupo de mais de mil empregados já protocolou espontaneamente junto ao Ministério do Trabalho e Emprego um pedido para que o Sindipa garanta o direito dos empregados votarem”, diz a Usiminas.
O Sindipa é contra a retirada de direitos adquiridos e luta pela reposição das perdas da inflação.