Os estoques do setor tiveram ligeiro aumento de 0,3% na passagem de dezembro para janeiro, atingindo 924,4 mil toneladas. Com isso, o giro subiu para 3,8 meses ao final do mês passado
São Paulo - Mesmo com a queda expressiva das importações de aços planos, a rede de distribuição continua enfrentando resultados negativos. O setor reporta margens pressionadas e aumento da inadimplência.
"Os distribuidores continuam muito preocupados e as margens se mantêm bastante apertadas", afirmou nesta terça-feira (23) o presidente do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Produtos Siderúrgicos (Sindisider), Carlos Loureiro.
Segundo ele, hoje a inadimplência está acima de 50% no setor. "Os clientes estão demitindo, decretando falência ou entrando em recuperação judicial. A inadimplência continua muito forte", declarou o dirigente.
O movimento ocorre mesmo diante da forte retração das importações. Segundo o Sindisider, em janeiro a entrada de aços planos no País recuou 35,3% em relação a dezembro e 81,6% na comparação anual, para apenas 30,4 mil toneladas.
"As importações caíram devido à ligeira recuperação dos preços no mercado internacional e a manutenção, há alguns meses, do atual patamar do dólar", pontua.
Outro fator que tem freado as importações é a queda da atividade econômica. "O mercado está comprando aço em cima da hora", pondera o dirigente. A penetração de aços planos no País é a mais baixa dos últimos anos, retornando ao patamar de 2008.
No entanto, no mês passado o giro de estoques apresentou ligeiro aumento de 0,3% em relação a dezembro, para 924,4 mil toneladas. Com isso, atingiu 3,8 meses ao final de janeiro, sendo o ideal 2,5 meses.
"Mesmo com a queda das importações a níveis tão baixos, não há a menor possibilidade de desabastecimento no mercado interno. Os estoques estão muito altos".
Loureiro afirma que a rede deve esperar o encerramento do primeiro trimestre para ter uma ideia mais clara de como será o ano. O Sindisider projeta fechar os dois primeiros meses do ano com queda de 17,3% das vendas se o mercado continuar demandando os volumes atuais.
Enquanto a rede de distribuição trabalha para se ajustar à demanda interna, as demissões continuam ocorrendo. Nos últimos dois anos, de acordo com o Sindisider, foram dispensados 28,2 mil funcionários, um quinto da força de trabalho do setor.
Preços
O presidente da entidade conta que, hoje, o prêmio do aço no mercado doméstico está "praticamente zero". "Não há espaço para reajustes diante da retração da atividade econômica e da sobrecapacidade global", explica Loureiro.
Segundo ele, os preços do aço chinês pararam de cair. "As siderúrgicas na China reportaram prejuízo em 2015 e isso nos faz crer que dificilmente os preços devem apresentar queda", avalia o dirigente.
A cotação dos principais insumos do aço - sucata, carvão e minério de ferro - vem registrando ligeira recuperação nas últimas semanas. Com isso, principalmente o produto norte-americano é o que apresentou maior alta. "Laminados a quente nos EUA, por exemplo, hoje está custando 20% a mais do que no Brasil", diz Loureiro.
Mas no mercado brasileiro a disputa deve ficar ainda mais acirrada, deixando menos espaço para recuperação das margens. Com a previsão de entrada em operação, ainda neste ano, de mais um laminador, o da Gerdau em Ouro Branco (MG), as usinas dificilmente conseguirão aplicar reajustes. "A briga por market share é que vai determinar o rumo dos preços no mercado brasileiro", pontua.
Loureiro destaca que as usinas não conseguiram negociar reajuste de preços para as montadoras, um dos maiores mercados consumidores de aços planos do País. Os contratos neste segmento são anuais e preveem aumentos a cada ano. Porém, diante da retração de quase 30% das vendas de veículos, a queda de braço pende para o lado mais forte.
Para a rede de distribuição, a perspectiva ainda é de incertezas. "Mantemos nossa projeção de queda das vendas em 5% para o ano, mas com um certo viés de alta. Tudo vai depender do desempenho nos próximos dois ou três meses", avalia Loureiro.