Matéria publicada nesta segunda-feira (4) no The Wall Street Journal, conta que o novo diretor-presidente da Rio Tinto PLC, Jean-Sébastien Jacques, pretende construir e comprar minas para expandir a mineradora anglo-australiana, ampliando o leque das commodities que podem fortalecer a empresa nessa nova expansão. Com a queda dos mercados globais de metais entrando no quinto ano, a maioria das principais exportadoras de minerais do mundo está se concentrando em menos ativos e commodities, na crença de que a medida as tornará mais fortes. No ano passado, a rival anglo-australiana BHP Billiton Ltd. se desfez de um grande número de minas e fundições, da Austrália à África, para se limitar a apenas quatro commodities. Já a Anglo American PLC está no meio de uma reestruturação radical que envolve a venda de mais de metade de suas minas, incluindo outrora cobiçados depósitos de carvão, concentrando-se em poucos ativos de maior margem. A Vale S.A. anunciou que prevê a venda de até US$ 15 bilhões em ativos neste ano e no próximo, entre ativos considerados essenciais e não essenciais, e que quer simplificar seu portfólio. A estratégia de Jacques, que assumiu o cargo no sábado, vai de encontro à das concorrentes.
“Sabemos do que precisamos para crescer”, disse Jacques em entrevista ao The Wall Street Journal. “A estratégia de crescimento da Rio daqui para frente” será de empreendimentos e aquisições inteligentes, disse.
Segundo a reportagem do Journal, a Rio Tinto recentemente aprovou um grande desembolso para ampliar uma mina de cobre na Mongólia e está cogitando investimentos ousados em novos mercados, como no de lítio, usado em baterias recarregáveis para carros e casas. Há duas semanas, Jacques reformulou as divisões operacionais da empresa e suas lideranças, substituindo o diretor da área de minério de ferro, Andrew Harding, que já foi considerado um candidato a diretor-presidente e agora está de saída. Jacques sucedeu a Sam Walsh, a quem muitos dão crédito por ter dado uma virada na Rio Tinto durante sua gestão de três anos, principalmente cortando custos e investimentos. A decisão de Jacques de agrupar várias commodities, como carvão e dióxido de titânio, e a unidade canadense de minério de ferro numa única divisão de “energia e minerais” levou analistas a especular que a empresa pode estar preparando um desmembramento semelhante ao que a BHP fez com sua divisão de metais e carvão, que em 2015 virou a South32 Ltd.
“Vamos criar uma South32 ou South 33? A resposta, em uma palavra, é não”, disse Jacques.
O jornal norte-americano diz que ao invés disso, ele disse que o líder da nova divisão — Alan Davies, ex-chefe das operações de minerais e diamantes — recebeu a missão de tornar rentáveis ativos em dificuldades e de criar novos negócios.
“Ele tem um papel a desempenhar como incubador de negócios”, disse Jacques. “Se formos desenvolver uma posição numa nova commodity, como o lítio, é aí que ela será desenvolvida.”
A matéria do WSJ fala que a empresa está investindo milhões de dólares e analisando o potencial de um depósito de lítio na Sérvia, num momento em que o preço da commodity está disparando com a expectativa de aumento da demanda de empresas como a fabricante americana de carros elétricos Tesla Motors Inc. Operadores de mercado dizem que a escolha de Jacques parece sinalizar um distanciamento do minério de ferro, responsável pela maior parte do lucro da empresa, em direção ao cobre, um setor em que muitos concorrentes, inclusive a BHP, vêm investindo cada vez mais. Jacques chefiava a unidade de cobre e carvão da mineradora antes de assumir sua liderança. Ele já previu que o cobre será uma das primeiras commodities a se recuperar, antevendo, nos próximos dois ou três anos, uma escassez do metal industrial, amplamente usado na manufatura e na construção. Em maio, a Rio Tinto aprovou uma adiada expansão de US$ 5,3 bilhões da sua mina de cobre de Oyu Tolgoi, situada no deserto de Gobi, na Mongólia. Na entrevista ao WSJ, Jacques insistiu que a Rio Tinto não quer reduzir seu foco para determinados mercados. “Não é uma questão de commodities, é uma questão de qualidade dos ativos”, disse. “Vamos expandir nossa posição em ativos de classe mundial, não importa qual seja a commodity.” Nos últimos anos, a Rio Tinto eliminou alguns ativos indesejados para fortalecer suas finanças e garantir sua nota de crédito, de um único A. A empresa vendeu minas de carvão e cobre e fez tentativas fracassadas de vender negócios como depósitos de diamantes e minas de minério de ferro no Canadá.
O texto do The Wall Street Journal acrescenta que uma proposta para desenvolver uma nova mina de minério de ferro na Austrália Ocidental, chamada Silvergrass, será avaliada nos próximos meses, disse ele. O objetivo do projeto, porém, é melhorar a qualidade das ligas de minério de ferro vendidas para a Ásia, não aumentar a produção total, disse Jacques. A melhor maneira de as mineradoras se protegerem e elevarem os lucros em meio a um período prolongado de preços baixos das matérias-primas tem sido muito debatida por operadores, sendo que alguns não creem que este seja o momento ideal para se expandir.
“Nos parece que ainda é muito difícil para as mineradoras se expandirem para saírem da situação atual e, sem esperar que os preços das commodities subam, parece que a melhor saída ainda é encolher o negócio e se concentrar em ativos de melhor qualidade e retorno mais alto”, escreveram analistas do banco Citigroup numa nota de pesquisa divulgada em junho.